Carlos Newton
O novo ministro do Turismo, Gastão Vieira, apesar de já ter cinco mandatos como deputado federal, parece ser um pouco distraído em relação ao noticiário político. Logo na primeira entrevista, concedida à rádio Estadão ESPN, admitiu não ter experiência no setor e fez uma declaração espantosa, ao dizer que vai seguir a orientação dos técnicos.
“Há uma equipe técnica no Ministério do Turismo que é elogiada por todos. Você ser ministro e governar é tomar a melhor decisão para o país. E, portanto, vou me valer, nesse início, da experiência acumulada (dos técnicos). Creio que não há nenhum mistério. É assim que acontece”, disse Vieira, explicando a estratégia a ser adotada e dando a entender que, sobre as fraudes ocorridas nas gestões anteriores, não viu nada, não sabe nada, não tomou conhecimento de nada.
É impressionante que um homem público tenha coragem de afirmar que “há uma equipe técnica no Ministério do Turismo que é elogiada por todos”. O que ocorre é justamente o contrário. A tal equipe técnica, comandada pelo então secretário-executivo do Ministério, Frederico Costa da Silva, era uma verdadeira quadrilha, que foi alvo da Operação Voucher da Polícia Federal, que prendeu de uma só vez 38 envolvidos, entre eles o próprio secretário-executivo.
Sobre sua experiência pessoal e profissional, Gastão Vieira disse estar preparado para o cargo. “Eu sou, de certa forma, uma pessoa com muita atividade política. Fui secretário no meu estado três vezes. Absolutamente não me considero um ministro genérico. Pelo contrário, sou uma pessoa que se preparou ao longo da vida para enfrentar desafios” – afirmou.
Como dizia Lula, é “menas” verdade. Vieira foi secretário de Estado apenas duas vezes: na primeira, secretário de Educação, de 2 de março de 1995 a 3 de abril de 1998, na segunda, secretário de Planejamento e Orçamento, de 15 de maio de 2009 a 30 de março de 2010. Foi desmentido pela própria biografia, que consta do site da Câmara.
Saudades do tempo em que não existia Ministério do Turismo, e o setor era atendido apenas pela Embratur. Não havia esse número exagerado de funcionários e de cargos em comissão, a roubalheira era muito menor. Quem inventou o Ministério do Turismo foi Lula, em 2003, para atender à base aliada. O resultado é esse que estamos vendo.
Carlos Chagas
Mudou alguma coisa? Quase nada. A única diferença entre Pedro Novais e Gastão Vieira é de que o novo ministro não sofreu até agora acusações de prática de irregularidades e de corrupção. No resto, em nada difere do ex-ministro: pertence à bancada do PMDB do Maranhão, tem carteirinha de sócio-atleta do “José Sarney Futebol Clube” e não entende nada de turismo. Assume o ministério sem saber o que fazer, como representante dos deputados do partido, ainda que nem todos.
Não dá para continuar assim, com a metade do ministério sem diálogo com a presidente Dilma, identificados alguns ministros que depois de oito meses e meio ainda não conhecem o interior de seu gabinete, no palácio do Planalto. Pior fica a situação quando se assistiu mais um lance de fisiologismo explícito na substituição de Pedro Novais. A bancada do PMDB na Câmara partiu da premissa de que o ministério do Turismo constitui seu feudo, sua capitania hereditária. José Sarney trabalhou pelo correligionário, do alto de seu peso de presidente do Poder Legislativo. E Dilma submeteu-se.
O pretexto é de que o governo precisa do apoio do PMDB para a aprovação de seus projetos e a rejeição de propostas que lhe sejam contrárias, no Congresso. Desapareceria a governabilidade caso a presidente escolhesse seus ministros conforme critérios de capacidade e probidade. Ora, governar de mãos amarradas é suicídio. Não pode dar certo. Dilma perdeu mais uma oportunidade de botar ordem na casa e selecionar auxiliares de acordo com suas diretrizes e concepções.
Aconteceria o que, caso a presidente Dilma Rousseff tivesse recebido a carta de demissão de Pedro Novais, agradecido e fechasse a porta de seu gabinete, mandando informar que escolheria e anunciaria o novo ministro quando bem entendesse?
Nada. Absolutamente nada, à exceção, talvez, de caras feias no PMDB. A presidente estaria apenas cumprindo o dever constitucional de compor o ministério. Buscaria informar-se de quem, no mundo político ou fora dele, melhor se adaptasse à função de ministro do Turismo. Impossível imaginar a inexistência de perfís variados para a função. Se algum deles fosse filiado a partidos políticos, melhor ainda. Caso contrário, tanto faz como tanto fez.
O tempo passa e o grito de independência vai sendo adiado. Vive-se um presidencialismo às avessas. Dá saudade de outros tempos, quando os chefes de governo compunham suas administrações sondando opiniões variadas, mas jamais submetendo-se a imposições partidárias.
É bom lembrar que o troco vem aí. O PT não está gostando nem um pouco da desenvoltura com que o PMDB nomeia e demite ministros. Se Dilma cede a pressões dos aliados, o que dizer de seu proprio partido?
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