segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Mais para as câmeras, menos para os microfones

Carlos Chagas

Nem de revolta, nem de euforia. De esperança, quem sabe, mas de boa vontade, também. Assim deverá ser o pronunciamento da presidente Dilma Rousseff na abertura da Assembléia Geral das Nações Unidas, quarta-feira. Atenções, ela despertará mais aqui do que lá. Para as centenas de delegados de países e de povos tão díspares, a novidade estará no fato de que pela primeira vez uma mulher brasileira dá o ponta-pé inicial nos intermináveis debates que não levam a lugar algum, tamanha a diversidade de debatedores quanto de desencontros em exposição.

Vale muito pouco a Assembléia Geral, mais propícia às câmeras do que aos microfones. Uma festa de cores e de vestimentas, de dialetos e de línguas, bem mais próxima da forma que do fundo. Enquanto prevalecer a regra de que cinco países valem mais do que todos os outros, torna-se dispensável o espetáculo desse falso congraçamento internacional. Porque apenas Estados Unidos, Rússia, Inglaterra, França e China, como membros permanentes do Conselho de Segurança, detêm o controle das decisões que realmente importam. Ainda mais com o poder de veto.

Apesar disso, é positiva a presença da presidente do Brasil na conferência, bem como nos encontros que manterá com diversos presidentes e primeiros-ministros. Desperta curiosidade saber qual o tom que ela imprimirá nesses diálogos.

***
A VERDADE E SUAS DIVERSAS FACES

Caso não sobrevenham adiamentos, na quarta-feira a Câmara dos Deputados estará aprovando a criação da Comissão da Verdade, grupo a ser constituído por sete integrantes aos quais caberá investigar denúncias de tortura e até de assassinatos praticados por agentes do poder público durante o regime militar. É farta a literatura sobre os excessos daquele período, parecendo obvio que virão à tona, também já conhecidos, os atos de virulência executados pelos que se insurgiram contra a ditadura. O passado estará sendo revolvido em favor da memória nacional, ainda que continuem proibidas pela Lei da Anistia quaisquer iniciativas para processar e condenar os responsáveis.

***
JUSTIÇA, AINDA QUE TARDE

A presidente Dilma sancionou, na semana passada, projeto de lei aprovado no Congresso dando a Pedro Aleixo lugar na galeria dos presidentes da República. Trata-se da reparação, mesmo tardia, de uma truculência praticada contra um vice-presidente impedido de assumir quando da doença do presidente, por ato de usurpação explícita adotado pelos três ministros militares. Eles até prenderam o dr. Pedro, mais tarde extinguindo seu cargo por um ato institucional.

Não houve solenidade alguma no palácio do Planalto, quando da assinatura da lei, estando o filho de Pedro Aleixo, padre José Carlos Aleixo, ausente do país, participando de um congresso na Espanha.

***
NÃO DÁ MAIS TEMPO

Insistirá o Lula, esta semana, na aprovação da reforma política pelo Congresso, segundo projeto apresentado pelo deputado Henrique Fontana. Está agendado um encontro do ex-presidente da República com o vice-presidente atual, Michel Temer, para tentar engajar o PMDB na proposta. O problema é que, mesmo havendo remotíssima chance de o partido unir-se em torno do texto do petista, nem por milagre a reforma política seria aprovada antes de 3 de outubro. Como um ano antes de qualquer eleição fica proibido mudar ou adaptar a lei para vigência no pleito imediato, infere-se côo sendo nulos os esforços do Lula. Reformas políticas e eleitorais, se porventura votadas depois daquela data, valeriam apenas para as eleições de 2014…

Nenhum comentário: