terça-feira, 27 de agosto de 2013

Lambança geral

Carlos Chagas
De quem será  a culpa da lambança pelos acontecimentos que, ontem, terminaram com a demissão  de  Antônio Patriota do ministério das Relações Exteriores?
Primeiro, da presidente Dilma, que antes mesmo de empossada decidiu nomeá-lo Chanceler.  Foi buscar no time dos reservas um titular flagrantemente despreparado para a função. Antes tivesse deixado Celso Amorim no lugar. Ou buscasse outro no quadro de embaixadores, ou mesmo fora da carreira. Mas a chefe do governo errou de forma continuada,   mantendo o diplomata, já que desde o primeiro dia não jamais o poupou  de homéricas e publicas admoestações, que ele submissamente engolia. Humilhações não faltaram, no palácio do Planalto, no avião presidencial e nas capitais para onde viajavam.
A culpa, assim, também foi do  próprio Patriota, sem brios para, na primeira admoestação,  entregar sua  carta de demissão. A permanência no poder não vale tanto, como acabam de demonstrar os fatos.
Não se exclua a Bolívia de sua parcela no  que aconteceu. Afinal, se o senador Roger Molina pediu asilo à embaixada brasileira, que lhe foi concedido, mandavam os costumes internacionais que em pouco o governo Evo Morales  expedisse  salvo-conduto para a saída do  oposicionista. Em se tratando de uma republiqueta, porém, nosso vizinho bateu pé. Coisas  que Oliveira Salazar fazia muito em Portugal, nos tempos de sua ditadura. Apesar das consultas encaminhadas  pelo Brasil, nada feito. O parlamentar tinha que ficar prisioneiro, relegado a um quartinho mínimo em nossa representação, já se iam quinze meses.
Não para aqui  o festival de incompetência. O Encarregado de Negócios do Brasil em La Paz  resolveu agir por conta própria. Segundo declarou, não  consultou ninguém no Itamaraty, para dar fuga ao senador, transitando em carro oficial com ele até Mato Grosso,  valendo-se das imunidades diplomáticas para atravessar a fronteira. O ministro Eduardo Sabóia sugere haver sido estimulado por autoridades bolivianas, através de  sinais de que não atrapalhariam. Nem o Pinóquio argumentaria melhor, ainda que seu gesto humanitário talvez tenha servido para salvar a vida de seu hóspede forçado.
A farsa de ontem à noite das cartas trocadas entre Dilma e  Patriota  remete-nos  ao Século Dezenove. A presidente agradeceu pelos serviços prestados,  premiou o  já agora ex-ministro com a embaixada nas Nações Unidas, pois ele  acentua haver pedido demissão. Nem uma coisa nem outra.  Foi demitido debaixo de loas à sua incompetência.
E agora?  E agora nada, restando saber se o novo Chanceler adotará o  modelo do antecessor ou irá lembrar-se do exemplo do Barão do Rio Branco.  Quem quiser que aposte…
O MAIS E O MENOS IMPORTANTE
Vamos supor aquela imagem que tanto nos apavorava nos tempos de criança, de um cidadão perdido no meio do deserto, morto de sede, sob sol inclemente  e sem qualquer oásis à vista. De repente, aparece alguém oferecendo  um copo d’água.  O infeliz deve olhar primeiro para o copo, porque se ele for de  cor vermelha,  rejeitará  a água, já que  sempre bebeu em copos azuis?
É a mesma coisa, agora. Para os  que vivem em municípios sem médicos,  entregues a curandeiros, pouco importa se o médico recém-chegado vem de um país onde há ditadura ou de outro plenamente democrático. O que importa é que saiba curar doentes.

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