terça-feira, 3 de abril de 2018

Transcrito do Facebook

Quando eu me imaginava mãe, eu me imaginava do lado de um pai bacana e bonitão, companheiro pra toda e qualquer situação, que me amasse cheia de defeitos como eu sou e que eu o amasse cheio de defeitos como ele viria a ser, eu imaginava uma casa alto astral com janelas e portas pintadas de um azul bem forte, e talvez meu lado mais romântico até fantasiasse cercas brancas protegendo a nossa casa. Eu imaginava cachorros no quintal, gatos por entre as pernas, flores no jardim, e uma pequena horta onde eu pudesse plantar, eu imaginava porta-retratos cheios de lembranças de dias felizes e muitas histórias pra contar. Eu imaginava que vinis de jazz antigo preencheriam meus ouvidos tocando numa vitrola na sala. Eu me imaginava num trabalho legal, onde eu pudesse ser feliz, e que quando chegasse em casa sentiria cheiro de feijão fresco e abraços de filhos. Isso mesmo: filhos no plural. Eu nunca imaginei que minha história fosse outra, eu nunca imaginei que o sonho não se realizaria. Eu nunca me preparei pra não viver o que pensei que viveria.
Eu não desejei ser mãe sozinha, do meu filho não ter irmãos, dos portas-retratos guardarem fotos apenas com dois sujeitos, eu e o filho. Eu nunca imaginei que eu teria que me desdobrar eu duas, em três, em mil se eu quisesse ser presente na vida do meu filho, ter um trabalho legal e sentir cheiro de feijão fresco. Eu nunca imaginei que teria que dizer não pra mim mesma com a minha vontade de adotar cães, gatos e crianças pra cuidar. Pelo simples fato de saber que eu não dou conta de dar o afeto que todos precisam. Eu nunca imaginei que seria assim, mas é assim que é.
E assim sendo, eu aprendi a ver a beleza do que me foi ofertado. Eu percebi que dizer não a uma história que não me fez feliz foi a maior prova de amor e respeito que eu poderia dar a mim mesma. E o maior exemplo que eu posso dar ao meu filho sobre relacionamentos. Eu aprendi que estar sozinha, não significa ser sozinha. Significa apenas que sou capaz de reconhecer o que pode ou não ser benéfico pra mim mesma. E que sou corajosa. Sem dúvidas alguma: eu sou corajosa.
Eu aprendi que eu nunca faria meu filho feliz se eu não estivesse verdadeiramente feliz. E eu não digo feliz vinte e quatro horas por dia, porque me desculpem os muitos felizes: eu não acredito ser possível.
Eu aprendi que as coisas talvez fossem mais difíceis - e muitas vezes são - mas isso não quer dizer que elas não vão acontecer. Elas vão. Talvez demorem mais, ou sejam mais batalhadas, mas vão acontecer amanhã ou depois.
Eu aprendi que sentir medo é normal. E que seguir em frente apesar do medo é questão de decisão.
Eu aprendi que não se morre de saudades de um filho, quando se tem a certeza de ser amada por ele.
Eu não escolhi a minha história, embora as minhas escolhas tenham me levado a ela, mas eu a aceito de coração aberto e com certeza que do dia que me vi sozinha com meu filho nos braços eu nunca mais me contentaria com o pouco. Que talvez o que eu imaginei pra mim nunca se realizaria, mas que talvez o que esteja reservado pra mim seja muito maior do que eu sou capaz de imaginar.

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