terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

POR QUE DESAPEGAR SE NAMORAR É TÃO BOM?
Essa é uma pergunta muito comum nos grupos espiritualistas. Por que precisamos deixar de lado aquilo que é bom? O bom não é uma dádiva de Deus para nós? Vamos explicar isso… No momento em que afirmamos que alguma situação é boa, gostosa, agradável e passamos a desejar de todo jeito aquilo que é bom… tudo o que acontecer diferente daquilo que vemos como bom se transforma em “mau” e vai nos fazer necessariamente sofrer.
De um modo geral o ser humano acaba gastando boa parte de sua vida buscando sempre aquilo que é “bom”. Dessa forma, tudo o que se distanciar desse bom será taxado e encarado necessariamente como “mau”. Assim, quando em nossa vida acontecer qualquer coisa diferente dessa construção pessoal do bom, esse acontecimento nos fará imediatamente sofrer… não tem como fugir disso.
No entanto, quando não separamos a vida dentro da dicotomia do “bom e mau”… ou quando não buscamos a todo custo o bom e negamos o mau… ou ainda quando deixamos de viver em função do bom e em função de negar, fugir, evitar ou nos distanciar o máximo do mau, podemos começar a ser felizes no tanto no bom como no mau. No momento em que o “bom” deixa de existir, o que é mau também passa a não existir mais. Lao Tsé, o grande sábio chinês, afirma que o bem e o mal geram-se mutuamente e que quando criamos um oposto, engendramos necessariamente o outro. Por outro lado, quando enfraquecemos um, tiramos automaticamente o poder do outro. Assim, para não sofrer com o mau, é necessário parar de desejar a todo custo aquilo que criamos como sendo o bom.
O mau só existe em função da existência do bom. Quando o bom deixa de ser bom… e passamos a ver todas as coisas da vida como boas, e não apenas uma ou outra coisa, deixamos de dar força ao mau em oposição ao bom, de modo que o mau passa a não mais nos atormentar. Assim, o mau deixa de existir e não existe mais sofrimento quando aquilo que é mau (diferente do bom) surge em nossa vida.
Sempre que reforçamos um oposto, automaticamente damos poder também ao outro oposto. Se, por exemplo, uma pessoa afirma que namorar é bom e ficar sozinha é mau, a partir desse momento será iniciada uma luta em sua vida que consiste em fugir da solidão, evitar o máximo a ficar solteira e viver em função de arranjar um relacionamento ou de manter esse mesmo relacionamento. Nessa luta, a pessoa fica com medo do mau e fica satisfeita e tranquila apenas quando está namorando (o bom). No entanto, somente podemos ter a felicidade verdadeira quando passamos a ser felizes tanto na solidão quanto no relacionamento. A felicidade que se consegue quando encontramos o bom e rejeitamos o mau é uma “felicidade” falsa, uma satisfação ilusória e transitória. Vamos lembrar que a abelha que produz o mel mais saboroso, extremamente agradável aos sentidos… é a mesma abelha que pode dar uma ferroada, deixando uma imensa dor em nós.
Se a pessoa pensa “namorar é bom, então não quero ficar sozinha de jeito nenhum”, toda vez que existir o mínimo sinal de que ela vai ficar sozinha, o sofrimento se inicia. Mas se ela não se importa em ficar ou não ficar sozinha, ou seja, se ela não construiu e reforçou a ideia de que o bom é ter um relacionamento e o mau é ficar sozinha, então ela poderá ser feliz tanto sozinha quanto namorando. Dessa forma, quando enfraquecemos o poder dado ao quanto é bom estar namorando, automaticamente enfraquecemos o mau de estarmos sozinhos. Por outro lado, não existem opostos fixos e separados, mas eles sempre coexistem dentro de um mesmo processo. Quantas vezes uma pessoa está com alguém, mas ao mesmo tempo sente-se solitária? Se os opostos fossem tão rigidamente delimitados quanto cremos, uma pessoa que está namorando não deveria sentir-me só. Mas quando negamos de toda forma a solidão e a tememos, ela estará sempre conosco, tal como uma sombra que nos acompanha onde quer que estejamos. Por isso, a pessoa que foge da solidão continuará sentindo-se solitária mesmo dentro de um relacionamento. Isso vale para tudo na vida: se eu busco a todo custo o sucesso, o fracasso me atormenta e o medo da fracasso passa a dominar as minhas ações. Uma questão muito importante e que merece ser citada é que quanto mais uma pessoa quer de todas as formas caminhar bem e corretamente, mais medo ela passa a ter de cair… e quanto mais medo de cair, mais ela se desequilibra e aumenta as chances de realmente queda-se no chão. Por esse motivo, quanto mais reforçamos um oposto, mais o outro aparece fortemente em nossa vida, de modo que quanto mais evitamos a solidão, mais ela aparece com a mesma força em nossa vida. É a mesma lei de Newtom ou a lei de causa e efeito: quanto mais empurramos algo para longe, mais esse algo retorna a nós com a mesma força que aplicamos. Esse jogo dos opostos é inexorável em nossa vida.
Dizem que o mito de Adão e Eva fala justamente sobre isso. Deus advertiu Adão e Eva a não comer do fruto que estava localizada no centro do paraíso. O nome dela era “árvore do bem e do mal”. Antes de comer o fruto dessa árvore, Adão e Eva viviam no paraíso, junto com Deus. Certo dia a serpente deu a maça a Eva e esta repassou a Adão e ambos a comeram. Nesse momento seus olhos se abriram e eles perceberam que estavam nus. Quando tomaram consciência de sua nudez, Deus apareceu e eles fugiram de Deus, escondendo-se atrás de uma árvore. Nesse dia os opostos começaram a existir para eles e esse foi considerado o pecado original, que é o pecado da separação dos opostos, a distinção do bem e do mal. Antes não haviam contrários e tudo era harmonioso, fluido e feliz. Mas quando se iniciou o jogo dos opostos, a unidade perfeita da vida passou a ser cortada em duas, o que é bom de um lado e o que é mau do outro… o que pode e o que não pode; o certo e o errado… o positivo e o negativo e assim por diante.
No entanto, não existe bom e mau, positivo e negativo, alto e baixo, luz e sombras, não há nenhum oposto, porque Deus está em todas as coisas. Se Deus está em tudo, como poderia haver bom e mau? Como pode haver certo e errado? Como pode haver a luz e a sombra? Deus não pode ter divisões, pois Deus é infinito e o infinto está em tudo.. Tudo é Deus, tudo é um. Por isso, não há opostos. Não há um Deus no céu e uma ausência de Deus na terra. Não existem esses contrários de céu e terra. Deus está tanto no céu quanto na terra. O ser humano é que decidiu colocar Deus lá longe no céu para que na matéria o homem possa viver tudo o que ele quiser, de forma egoísta e vaidosa – crendo-se o deus na Terra – e vivendo independente, sem precisar pensar em Deus e viver com Deus.
Por esse motivo, jamais devemos viver em função do que é “bom”. Quanto mais damos poder, buscamos e lutamos pelo que é bom, mais desejamos evitar o mau; mais lutamos contra o mau; mais sofremos quando o mau (o diferente do bom) se instala em nossa vida. Quanto mais buscamos o belo, mais o feio nos atormenta; quanto mais buscamos o prazer, mais a dor nos atormenta; quanto mais buscamos o alto, mais o baixo se faz presente, quanto mais buscamos o sucesso, mais o fracasso nos assusta, quanto mais buscamos o bom, mais o mau nos faz sofrer. Quanto mais alimentamos um extremo em detrimento do outro, mais nossa vida se tornará uma luta entre opostos… mais vamos ansiar pelo bom e mais vamos lutar contra a presença do que estruturamos como mau em nossa vida. A infelicidade consiste em viver buscando o bom e em viver fugindo do mau, ao invés de viver bem agora, de ser feliz agora, de estarmos em paz agora, independente daquilo que pode ser bom ou mau. Nisso consiste a felicidade na vida de todos. Como dizem os rosacruzes da AMORC: “Cremos que crescer é fazer em níveis cada vez maiores a ligação entre os contrários”.
Os mestres sempre nos alertaram sobre isso. O segredo da felicidade é enfraquecer o máximo possível esse jogo dos opostos em nossa vida. Quanto mais buscamos o bom, mais o mau nos atormenta. Essa é uma lei universal da vida, que vale para todos. Os mestres espirituais de várias épocas deixam claro que quanto mais nos libertamos do domínio dos opostos, mais estamos próximos de Deus, da vida, da paz e da felicidade eterna.
(Hugo Lapa)

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